Badiou e a Questão da Organização – Parte I: Movimento, Política, Organização

Nota sobre a tradução

Apresentamos aqui a primeira de uma série de traduções acerca da questão organizativa e o “pós-maoismo” de Alain Badiou e seus colegas de militância. O texto, publicado sob o pseudônimo de Konstantin Popovic na Revue Periode é dividido em três partes, como explicado na introdução. Publicamos por hora a primeira parte, que lida com a necessidade da organização para Badiou, que é o que o diferencia de outras correntes da ultra-esquerda que, frente à avaliação da obsolescência do modelo leninista e da forma-partido, abandonam a necessidade organizativa como um todo. A tradução de outras partes seguirá em momento oportuno.

Um conceito central para o texto é o de « émeute », que pode ser traduzido de diversas formas para o português: revolta, insurreição, tumulto, protesto. Similar ao uso em inglês do termo riot, aqui ele não descreve meramente o ato de se revoltar, mas especificamente um estágio de lutas, na qual as massas se revoltam contra o Estado, ainda que sem uma organização formal que conduza a luta à um estado verdadeiramente revolucionário. Devido à resença de outros termos que poderiam ser traduzidos seja como revolta (révolte) ou insurreição (insurrection), optou-se por traduzir o termo como “tumulto”, pois acreditamos ser o termo que melhor espressa a condição de estágio concreto da luta, e não meramente o sentimento das massas ou ações específicas dentro deste.

Introdução

O que resta do marxismo se descartarmos a ideia de que a organização representa as classes em luta? Se nos recusarmos a determinar situações políticas por suas tendências objetivas? Como mostra Konstantin Popović, a proposta de Alain Badiou aponta precisamente para esse continente, amplamente inexplorado, do pós-leninismo (que acaba por ser, indissociavelmente, um pós-maoismo). Ao traçar a trajetória de Badiou, Popović ilumina a problemática, posta desde os anos de 1970, de um partido marxista-leninista de novo tipo, de uma política distante do Estado, da necessidade de uma reavaliação impiedosa do socialismo estalinista e reformista. Surgem linhas estratégicas: a importância do inquérito militante e conexão de massas, a produção de espaços removidos do parlamentarismo, a elaboração de medidas e motes visando restringir o Estado e limitar seu poder sombrio.

« A questão de novas formas de disciplina política emancipatória é a questão central do comunismo por vir »

O problema da organização, na medida que designa o processo da política em si, que se torna sinônimo da realidade da ação coletiva, sempre ocupou um lugar decisivo no pensamento militante de Alain Badiou. A reabertura de um novo ciclo de políticas comunistas depende de sua resolução criativa, inseparavelmente teórica e prática. Isso, é claro, pressupõe uma análise lúcida de sua historicidade, do legado ambivalente deixado pelo Século XX, assim como uma visão clara (ainda que parcialmente enigmática) das exigências de sua futura formalização terá de cumprir. O texto se divide em três partes: a posição da política em relação ao movimento de massas, balanço crítico do programa leninista e uma abordagem da organização vindoura em sua dialética dual entre as massas e o Estado.

Movimento, política, organização

O enunciado fundamental do qual se desenvolve o pensamento político de Alain Badiou pode ser resumido assim: não há política que não a política organizada. Esse enunciado impõe antes de tudo uma distinção clara entre política e movimento de massas, na qual política não pode ser reduzida aos dados puros e pontuais das revoltas, na qual sua tarefa é inscrever uma temporalidade além, uma recomposição unificada e duradoura daquele início que foi o tumulto. Neste ponto, a última sequência, marcada tanto pelo ressurgimento de poderosas mobilizações populares em escala mundial quanto por suas repetidas derrotas, nos convida a sacar certas lições, resumidas por Badiou em seu recente Parcours grec (( Alain Badiou, Circonstances 8. Un parcours grec, Lignes, 2016)), O que nós podemos observar, repetidamente, é que um movimento geralmente encontra seu princípio de unificação apenas no contágio de efeitos puramente negativos. Quer seja um ditador odiado ou um princípio abstrato de oposição, a mobilização de massas somente possui consistência ao compartilhar um antagonismo. Entretanto, a apropriação massiva de termos exclusivamente negativos (« Não à austeridade », « Fora Moubarak », « Resistência » ) pode ter levado à vitórias táticas parciais, como no Egito, a ausência de uma proposta organizacional positiva, a ausência de uma orientação sistemática nova, invariavelmente condena os insurgentes à falência e à derrota.


Na realidade, o movimento é uma categoria da história, não da política; ele por si só não entrega nenhuma visão política clara; é apenas uma condição (necessária mas de forma alguma suficiente) para a política. « Pois toda política é governada por aquilo que afirma e propõe, e não por aquilo que nega e rejeita (( Ibid., p. 37.)). » Passar do movimento para a política é passar de uma unidade negativa precária para uma unidade positiva, portando uma linguagem comum. E também é aceitar uma divisão e luta interna aberta ao interior do movimento (onde se verifica a pertinência atual do conceito maoista « um se divide em dois », isto é, a aceitação da luta entre o velho e o novo no seio das massas como força motriz do trabalho político organizado), rejeitando a harmonia fictícia da fusão circunstancial e do entusiasmo festivo e colocando questões estratégicas essenciais na ordem do dia. « Para haver unidade, é preciso haver inimigos comuns » dizia uma famosa faixa do último movimento contra a Lei Trabalhista: mas essa unidade só é momentânea, ela une no curto tempo de insurreição, pela força afetiva de uma oposição comum, de elementos que de outra maneira são profundamente divididos quanto ao horizonte estratégico; verdadeira unidade, política, é construída, tal é a tarefa pós-tumulto da organização. Porque senão, a falta de coesão afirmativa conduz ou à supressão e ao puro e simples desaparecimento do movimento, ou à apropriação social-democrata, sua inclusão parlamentar – da qual a Espanha e, principalmente, a Grécia são exemplos evidentes. Foi o que a experiência dos últimos anos nos ensinou.


O tumulto é necessário. Ele é, como diz Badiou, « o guardião da história da emancipação no interregnum ( Alain Badiou, Circonstances 6. Le Réveil de l’Histoire, Lignes, 2011, p. 63.))» Ele aponta para uma nova possibilidade sem, entretanto, revelar a substância dessa possibilidade. A organização política, portanto, tem a tarefa de superar a finitude temporal do movimento através do manejo disciplinado de suas consequências. Esse processo organizacional tem como seu corolário a afirmação comum de uma ideia, que pode ser chamada de comunista na medida que, longe de encarnar qualquer transcendência nebulosa, ele designa e concentra os quatro pontos estratégicos fundamentais da emancipação. Primeiro: a abolição da propriedade privada (que Marx considerava como a posição matricial de seu Manifesto), isto é, a ideia de que uma organização social que não é governada por lucro e interesse próprio é possível. Segundo: a superação da divisão entre trabalho manual e intelectual (e entre tarefas gerenciais e tarefas operacionais), ou, o fim da especialização do trabalho e o advento do que Marx chama de “trabalhador polimórfico”. Terceiro: o internacionalismo, isso é, a superação dos agrupamentos identitários fechados, das separações culturais, a afirmação de uma política transversal e planetária. Quarto: o definhamento do Estado, ou, seu desaparecimento como órgão separado, um poder parasita, e dessa forma, a instauração do regime de « livre associação ». Isso não é um programa, mas sim princípios de avaliação, axiomas básicos. O conceito de ideia nomeia simplesmente esse ponto de referência positivo, essa projeção histórica na qual todo agrupamento militante se baseia, e da qual depende a abertura de uma nova sequência de políticas de emancipação em escala global. Por que sem uma ideia, sem uma unificação afirmativa apoiando um processo organizacional concreto, há apenas a dispersão e finitude tática dos movimentos.


« Uma organização está no cruzamento entre uma ideia e um evento. Esse cruzamento, no entanto, existe unicamente como processo, cujo sujeito imediato é o militante político. O militante é um ser híbrido, pois ele é o que o movimento tumultuoso, recapturado pela ideia, pode produzir (( Ibid., p. 98.)). » Somente a organização permite evitar a repetição infinita de levantes sem futuro, de revoltas pontuais sem ligações estratégicas; ela é essencialmente um instrumento de continuidade, de uma temporalidade nova; ela instaura uma duração ao tumulto abolido, através da salvaguarda de seus três elementos constituintes: a intensificação subjetiva dos atores, a contração quantitativa ao redor de uma minoria cujo poder de enunciação possui um valor universal, e a localização ao redor de lugar simbolicamente populares. Ela é um termo diagonal que impõe um deslocamento, uma torção, à oposição binária Massas/Estado, invariavelmente reativada por todo movimento histórico, e típico do « esquerdismo especulativo » que pode ser definido pela fascinação com o início radical, pela absolutização do movimento insurrecionário e pela rejeição de qualquer instância organizativa em favor de um dualismo rígido inconstante. O antagonismo abstrato, não dialético, entre as massas homogêneas deificadas e um Estado despótico hipertrofiado leva apenas à espontaneidade cega, prevenindo qualquer processo político inovador, na medida em que tal processo é necessariamente, como dissemos, um operador de cisão, de divisão no seio das massas e no seio do movimento. Um terceiro termo – organização – é portanto necessário para o nascimento de uma política de verdade, na medida que se ordene não às revoltas jubilantes de curta duração, mas à transformação real do mundo. Nós iremos retornar aos detalhes desse processo de formalização política. Por ora, nos basta enfatizar a função da organização como aquela de buscar, na realidade, a exceção contingente aberta pelo movimento de massas – uma realização difícil e fragmentária de uma verdade da qual o tumulto era a única condição de possibilidade desvanecida. Como resume Badiou: « o que era o surgimento da possibilidade vem a inscrever seu potencial de universalidade nos fragmentos expostos do real. E essa inscrição era, anteriormente, impossível. Dessa possibilidade efetiva do impossível, o trabalho militante é o único guardião, pois é ele que aceita temporalizá-la, ao invés de meramente experimentar sua embriaguez local (( A. Badiou et M. Kakogianni, Entretien platonicien, Lignes, 2015, p. 67-68.)). »

Nós podemos também compreender a questão por um viés filosófico. O evento, conceito fundamental no sistema de Badiou, nomeia o início, a perigosa inauguração de toda verdade, mas não constitui absolutamente sua metonímia. O evento, por definição, não pode ser descontado das leis da Situação; ele não realiza uma possibilidade interna, mas, pelo contrário, produz novas possibilidades; ele desloca, por assim dizer, a fronteira entre o possível e o impossível, anteriormente regulada pelo Estado. Seu efeito é o de levar ao grau máximo o que previamente não existia aos olhos da ordem mundial, o que foi excluído, restrito, separado de qualquer decisão. A sucessão do inexistente, pela qual se assinala toda ruptura relativa ao evento, é, na política, a insurreição que Rancière chamaria de « parte dos sem-parte », a aparição brusca e violenta desse povo cuja falta estrutural é organizada pelo capitalo-parlamentarismo. « Se somos nada neste mundo, sejamos tudo » canta a Internacional. Toda verdade se origina, portanto, de uma ruptura dos equilíbrios sistêmicos, mas essa ruptura tem a natureza empírica de um eclipse; sua aparência extravagante coincide com seu desaparecimento; ela oferece somente a possibilidade de um procedimento genérico. A verdade, assim, não é redutível ao Evento, pois ela é essencialmente da ordem do processo, não de iluminação, ela não é meramente um clarão hipnótico, mas o imperativo de uma consistência nova. O momento decisivo reside então na disciplina rigorosa das consequências, na fidelidade inventiva que um Sujeito será capaz de sustentar, e à qual o valor do evento (sua filiação real e prolongada à situação) é suspenso. A confusão entre verdade e evento negligencia o fato crucial que uma verdade é sempre pós-eventual, ela possui a continuidade sem precedentes de uma descontinuidade radical. Superar a obsessão com a ação pura, a nostalgia da origem, para se voltar à construção do novo em situação, ao desdobrar de uma temporalidade consistente, esse é o sentido da ética da verdade. Porque, como escreve o Comitê Invisível, « aquilo que se viveu fica a brilhar com uma tal intensidade que aqueles que o experienciaram tornam-se-lhe fiéis, não se querem separar, antes construir de facto o que agora faz falta à sua vida de antes » ((Comité Invisible, À nos amis, La Fabrique, 2014, p. 44)). Onde nos juntamos novamente à intuição central de Badiou « Chamo de fidelidade a organização política, ou seja, o produto coletivo da consistência do evento, para além de sua esfera imediata » (Peut-on penser la politique ?, Seuil, 1985, p. 77) )).

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